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// Oriente Médio
Entenda o contexto político que tornou possível a maior crise humanitária atual
Enquanto os olhos do Ocidente estão voltados para o drama social que eclodiu nas fronteiras da Venezuela, outra crise humanitária, a maior do planeta de acordo com a ONU, está completando cinco anos de existência neste mês. De 28 milhões, um total de 24 milhões de habitantes do Iêmen necessita de socorro, tanto para sanar a fome quanto para obter ajuda médica, enquanto uma guerra civil consome o país que está no extremo sudoeste da Península da Arábia.
O conflito que se desenrola há anos agravou-se em termos de violência em 2015, quando o país mais pobre da região virou palco de combate entre grupos regionais que almejam o poder entre si e forças internacionais. As origens da guerra começam pós-Primavera Árabe, quando os iemenitas também se manifestaram por mudanças no país.
Em novembro de 2011, o então autoritário presidente Ali Abdullah Saleh entregou o poder para o deputado Abd-Rabbu Mansour Hadi, mas a transição política falhou e gerou desemprego massivo falta de comida, atos extremos com participação de homens-bomba e até um movimento separatista na região sul do país com a passagem do tempo.
O conjunto de fatores proporcionou o contexto frágil ideal para que o movimento Houthi, um grupo político rebelde muçulmano, tomasse a capital Saná, em 2014. No ano seguinte, tentaram dominar o país como um todo ao passo que um grupo fiel a Saleh fazia o mesmo. Isso causou o exílio de Hadi na Arábia Saudita, país que enxergou a investida Houthi como ocasião perfeita para o Irã exercer influência e controle sobre parte do Iêmen.
Os sauditas acusam o Irã de apoiar os rebeldes Houthi, algo negado pelos iranianos. Ainda assim, a Arábia Saudita criou uma aliança com mais oito países, sendo que houve amparo estratégico dos EUA, Reino Unido e da França, para uma campanha militar aérea que matou milhares de pessoas até o momento.
A coalizão organizada pelos sauditas quer Hadi no poder, mas o norte, ocupado pelos Houthi, não se rende e no território está incluída tanto a capital quanto o porto que permite a entrada de ajuda. Diante do caos instalado, até mesmo militantes Al Qaeda e o braço regional do Estado Islâmico se envolveram na guerra. A coalizão mantém embargos para que o Iêmen receba produtos com a justificativa de que armas são traficadas pelo Irã.
Dados da ONU estabelecem quase dez mil mortes e quase 11 mil feridos desde março de 2015, sendo que mais da metade das fatalidades foram causadas por bombardeamento da coalizão. No entanto, a ACLED (Armed Conflict Location & Event Data Project) contabiliza o número de mortes em mais de 60 mil desde 2016.
No fim de fevereiro, a ONU promoveu mais uma reunião para coletar doações em Genebra, Suíça, e conseguiu U$ 2,6 bilhões. No entanto, a Organização precisava de um montante de U$ 4,2 bilhões para ajudar a população.
"Só nossa intervenção humanitária não solucionará o problema"
O conflito no Iêmen surte impacto em todos os aspectos da vida dos habitantes. A escala da crise é imensa e milhões vão para a cama com fome, sem água tratada e com risco de contrair doenças. O sistema de saúde e sanitário estão quebrados e conduzir o tráfego de alimentos e produtos é complicado. "Em resumo, estamos falando de uma catástrofe", relatou a porta-voz e diretora de comunicação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Mirella Hodeib.
O CICV lida com programas de envio de comida, atendimento médico e proteção de civis, enquanto age de modo neutro entre as partes inseridas no combate armado. No ano passado, mais de sete milhões de pessoas se beneficiaram da ajuda da entidade. Original do Líbano, Hodeib vive no Iêmen há 18 meses e concedeu uma entrevista ao Destak para dar dimensão da guerra civil que assola o país.
O que faz a crise humanitária no Iêmen ser a maior do mundo hoje em dia?
No país, mais de 80% da população precisa de suporte e o prolongamento do conflito levou os iemenitas aos limites. Os deixou sem proteção e com necessidade de comida e medicamento. De acordo com o Comitê, até três milhões de iemenitas foram tolhidos de um lar e hoje vivem em acampamentos improvisados sem nada para comer e estão expostos a todo tipo de perigo. A infra-estrutura e as comunidades estão vulneráveis.
Qual o número oficial de mortos e como está a situação da fome?
As estatísticas da ONU dizem que mais de dez mil vidas foram tiradas desde 2015. Agora, em relação à subnutrição, dados da ONU afirmam que 16 milhões são afetados pela fome e cerca de 400 mil crianças estão severamente desnutridas em toda o território.
A ajuda humanitária consegue chegar ao Iêmen? Há relatos que afirmam que 70% do que chega ao porto é desviado.
Por conta das atividades de guerra na linha de frente, há restrições nas importações e no fluxo de mercadorias para o país. Dúzias de organizações humanitárias trabalham no Iêmen para aliviar o sofrimento da população. Mas as necessidades são enormes e a ajuda das entidades não consegue cobrir as prioridades dos 24 milhões de necessitados.
O que seria necessário para acabar com a guerra?
Esforços políticos precisam ser exercidos para encontrar o fim do conflito. Só nossa intervenção humanitária não solucionará o problema. As agências não podem alimentar milhões de iemenitas nem prover cuidados médicos ou outras necessidades para o país inteiro. Medidas para aumentar a confiança entre as partes envolvidas foram firmadas durante diálogos para promover a paz em Estocolmo, em dezembro de 2018. As conversas estão relacionadas às importantes cidades Hodeida e Taiz. Isso e o acordo entre as partes para soltarem e transferirem os detidos no conflito são importantes primeiros passos.
Qual foi o maior avanço conquistado recentemente no conflito?
Esperamos que a redistribuição nos entornos da cidade de Hodeida, na costa oeste, seja mantida e reforçada para permitir que alimentos e remédios alcançem milhões de iemenitas com fome e enfraquecidos.
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