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Entenda o que está acontecendo na Venezuela

24.01.2019 15:53 por Thaís Freire
Líder opositor Juan Guaidó se declarou presidente gerando uma divisão no país que enfrenta protestos e violência
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Foto: AFP
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Foto: AFP

O líder opositor Juan Guaidó se declarou presidente venezuelano nesta quarta-feira (23) e recebeu apoio de uma série de países, incluindo o Brasil e os EUA, além de atores regionais. No entanto, isso não significa que o governo de Nicolás Maduro irá sair de cena ou que o país passará por uma transição democrática tão rapidamente.

Nesta quinta-feira (24), em um comunicado oficial, o vice-presidente americano Mike Pence afirmou que, apesar do aviso de Maduro de que irá cortar as relações diplomáticas com os EUA e expulsar os diplomatas americanos do país, Washington planeja manter sua missão em Caracas e os laços com Guaidó. 

O líder opositor divulgou um documento, horas depois do anúncio de Maduro, afirmando que as relações diplomáticas com todos os países com embaixadas presentes na Venezuela serão mantidas. Ele também tem anunciado membros do governo paralelo.

A decisão reforça o reconhecimento do líder opositor como presidente do país, sinalizando que as decisões internacionais passarão agora pelas mãos de Guaidó. No entanto, o líder opositor não domina a onda de protestos contra Maduro que tomou os ruas nos últimos dias e não tem, princialmente, o apoio das Forças Armadas, ator indispensável para a manutenção do poder do presidente.

Quem é o presidente agora?

Em 2018, Nicolás Maduro tentou a reeleição, mas o pleito não foi aceito pela comunidade internacional devido a suspeitas de fraude. Com o resultado, Maduro foi empossado dia 10 de janeiro para seu novo mandato, mas é considerado presidente "ilegítimo" por 34 países das Américas.

Após a autodeclaração, Juan Guaidó passou a ser reconhecido por diversas nações e organizações mundiais como presidente interino, e tem como proposta comandar um governo de transição para então realizar novas eleições no país.

Para o Coordenador do curso de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco José Maria de Souza Júnior, mesmo assim, a autodeclaração de Guaidó é uma espécie de golpe. "Apesar de a Venezuela não ser mais um sistema democrático, houve um rompimento do padrão constitucional do país".

Que países reconhecem Guaidó como presidente?

Estados Unidos, Brasil, Canadá, Paraguai, Argentina, Colômbia, Peru, Equador, Costa Rica, Chile, Guatemala, França, Dinamarca, Albânia, Espanha são os países que demonstraram apoio ao líder opositor. Nesta quinta (24), a Comissão Europeia, que não reconheceu Guaidó oficialmente como presidente, anunciou seu apoio para que novas eleições sejam convocadas na Venezuela.

Maduro, por outro lado, tem o apoio da China, Rússia, Turquia, Cuba e Bolívia. O México se manteve neutro, apoiando a manutenção do sistema atual, sem indicar apoio explícito a Maduro. A China e a Rússia alertaram, nesta quinta, que os EUA devem se manter distantes da crise venezuelana e se opõem a qualquer intervenção estrangeira no país.

De acordo com a BCC Brasil, a OEA (Organização dos Estados Americanos) irá cancelar a saída da Venezuela do grupo - pedido feito por Maduro abril de 2017, após o Conselho debater a situação humanitária no país - e expulsar os representantes do governo bolivariano dos postos oficiais da entidade. 

O coordenador José Maria de Souza Jr. aponta que sempre que um país passa por um crise ou um novo Estado declara independência, por exemplo, é buscado o reconhecimento exterior. "Esse reconhecimento dá mais força para a oposição", explica o especialista. "Existe algo do sistema internacional que é: quando os EUA firmam um ponto de um lado, a Rússia vai para o outro lado", lembra Souza Jr. 

No entanto, para o especialista, a solução da crise venezuelana virá de dentro de país e não de um esforço estrangeiro.

E as Forças Armadas?

Em seu discurso de 58 minutos após o anúncio de Juan Guaidó, na quarta-feira (23), Nicolás Maduro pediu a lealdade e disciplina das Forças Armadas. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, confirmou, logo depois, o apoio militar ao presidente chavista.

Na segunda-feira (21), um grupo de 27 soldados da Guarda Nacional foi preso após roubar armas e sequestrar oficiais superiores em um quartel em Caracas. Nas redes sociais, os soldados postaram um vídeo no qual pediam um levante contra Maduro. A ação é um indicativo de insatisfação com o governo dentro da Guarda Nacional.

José Maria de Souza Jr. explica porque as Forças Armadas mantêm o apoio a Maduro: "A alta cúpula do Exército participa do governo. Eles comandam partes fundamentais do país, como a empresa nacional de petróleo, e não sofrem com o cenário de miséria. Quem pode romper com Maduro são os oficiais de baixa patente".

O especialista lembra que além das Forças Armadas e da Guarda Nacional existem ainda as milícias armadas apoiadas por Maduro. "Caso as milícias e a Guarda Nacional continuam ao lado de Maduro e parte das Forças Armadas apoie a oposição isso pode ser um cenário perigoso para guerra civil", afirma.

Há possibilidade de intervenção militar?

Para Souza Jr., a possibilidade de intervenção militar é muito baixa, apesar de o governo de Donald Trump e o presidente brasileiro Jair Bolsonaro terem dado indícios de que poderiam realizar uma ação militar. 

"Para que uma intervenção militar tenha o mínimo de legitimidade, seria necessário passar pelo Conselho de Segurança da ONU, mas a Rússia e China não aceitariam", diz o especialista, lembrando que os dois países têm poder de veto. 


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