Seu Destak
Em defesa da burca
Publicado em 25/06/2009 - 1 comentário
Se a servidão é voluntária, o problema é do servo. E o governo não tem nada a ver com isso
Se você leu o título acima e já está indignado(a) , achando que sou um obscurantista favorável à opressão das mulheres muçulmanas, calma lá. Não é nada disso. Também considero a burca - aquele vestido que cobre o corpo da cabeça aos pés - um símbolo de submissão que deveria ser rejeitado pelas mulheres islâmicas. Penso a mesma coisa sobre o chador, a versão iraniana do traje, ou a abaya das sauditas.
Este, na verdade, é um texto sobre a liberdade individual, um valor fundamental que diferencia as democracias ocidentais dos regimes ditatoriais, baseados na religião, que dominam o Irã e a Arábia Saudita e que os talibãs tentam reimplantar no Afeganistão.
Num momento em que vemos o Irã pegando fogo porque parte da população não aceita a farsa eleitoral montada pelo regime religioso dos aiatolás, é importante marcar essa diferença - algo, aliás, que o presidente Lula, uma das poucas vozes internacionais a reconhecer a eleição iraniana, parece não perceber.
Mas voltemos à burca. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, disse anteontem que o traje não tem lugar em seu país. Há alguns anos, em nome do republicanismo e do Estado laico, a França, que tem 5 milhões de muçulmanos, proibiu que as estudantes islâmicas frequentem a escola usando o hijab - véu que cobre apenas os cabelos.
Proibir tanto um quanto outro é um erro. Se a França deseja que as muçulmanas francesas não sejam oprimidas pelos seus pais, deve dar apoio e abrigo àquelas que resolverem desobedecer às imposições da família. Mas por que impedir aquelas que desejam seguir as tradições, ainda que isso signifique sujeitar-se a uma opressão? Pode-se lamentar, mas proibir é o mesmo que impor.
Na França, os que defenderam a proibição do véu e propõem o mesmo para a burca argumentam que essa é uma maneira de afirmar a separação entre Estado e religião - uma conquista das democracias ocidentais, que está na base da liberdade existente nesses regimes. Ora, se o objetivo é manter essa separação, por que o Estado deve intrometer-se numa prática derivada dos costumes religiosos? Insisto, se a servidão é voluntária, problema do servo, e o governo não tem nada a ver com isso.
Não é apenas contra um resultado eleitoral duvidoso que milhares de jovens iranianos enfrentam o governo nas ruas. A fraude frustrou a expectativa deles de ver ao menos reduzidas as imposições feitas pelos aiatolás. O que os iranianos querem é poder escolher o que vestir, onde namorar, com quem se casar. Alguém deveria explicar isso para Lula e Sarkozy. O melhor a fazer agora é defender a liberdade.
Em defesa da burca
(Fábio Santos*)
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Magda Martins - 27/06/2009 17:03
Primeiro texto que leio sobre esse assunto e se assemelha ao que penso. Especialmente a parte sobre abrigar aquelas mulheres que resolverem se rebelarem.
Isso sim seria promover a igualdade. Sarkozy só faz isso, de proibir burca e etc, para não "poluir" a cultura francesa com outras.
Aqui um trecho de uma matéria da Carta Capital na época das eleições francesas:
“Volta e meia, Sarkozy anuncia: ‘A França para os franceses.’ Diz aos imigrantes e filhos que aqueles que não estiverem satisfeitos com as tradições e valores da França, podem voltar para casa. Além disso, Sarkozy propõe a criação de um Ministério da Imigração e Identidade Nacional debaixo de duras crítcas de Ségolène. Bayrou [...] enaudita: ‘Quando alguém tem um mínimo de memória da história da França, e quer um país pacífico, então alguém não mistura essas duas palavras (imigração e identidade).’"
Sobre as eleições iranianas discordo mas acho que o que ocorre lá, serve para ilustrar. As manifestações são feitas por uma minoria de pessoas com maior conhecimento de mundo. São em sua maioria estudantes e outras pessoas de maior repertório cultural e intelectual.
A maioria da população, rural e pobre, apóia o atual presidente Ahmadinejad e sua (péssima) política. Isso ficou comprovado em pesquisas feitas por órgãos ocidentais, inclusive.
Ou seja, por que apóiam? Porque lhes falta base para discernir. E o mesmo acontece com muitas destas mulheres que usam burcas...
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